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O futuro biológico do PC

Postado em: 15/12/2014, às 13:06 por Redação

O fato de que podermos carregar minicomputadores em nossos bolsos, hoje, para Federico Faggin, é muito cafona. E esse comentário, feito pelo pai do microprocessador, inventado em 1971, é compreensível porque ele é italiano. Nascido em Vicenza, para ser mais preciso. Um típico participante da "fuga de cérebros" da Itália, ele mudou-se para o Vale do Silício, em 1968, e, logo depois, se juntou a Intel, a empresa para a qual desenvolveu o 4004, o primeiro microprocessador de silício. Pode-se dizer que o seu papel na revolução tecnológica foi equivalente ao do motor de combustão interna na revolução industrial.

Normalmente, fora das principais listas de inventores famosos, existe um italiano relativamente desconhecido que revolucionou o mundo; por pensar que algo pequeno não poderia ser apenas bonito, mas também útil e prático. Federico Faggin viu o futuro do microchip, embora não tenha visto todo o resto. Agora, ele está tentando olhar para frente, para um momento em que teremos máquinas – realmente – inteligentes à nossa disposição, conforme revela em entrevista concedida à Pirelli Worldwide Magazine

P – Como você chegou a invenção do microprocessador?
R – A Busicom, uma empresa japonesa, pediu a Intel que produzisse sete circuitos integrados para uso em calculadoras eletrônicas. Três destes circuitos foram desenvolvidos inicialmente para uma CPU, mas o responsável pela direção do grupo de aplicações da Intel, Ted Hoff, levantou a hipótese de que a CPU poderia ser feita com um único chip, em vez de três. O projeto ficou parado por seis meses e, depois, eu passei a gerenciá-lo: depois de trabalhar cerca de 70-80 horas por semana, durante quase um ano, consegui concluí-lo.

P -Você notou, logo de cara, que tinha mudado o mundo?
R  – Olha, eu estava bastante animado. Quando o trabalho foi concluído, minhas mãos tremiam. Entendemos que uma revolução estava em andamento: na época, nós tínhamos na cabeça que poderíamos fazer muitas coisas com software, em vez de hardware.

P – Como é a sensação de ser o pai do microchip?
R -Sinto-me orgulhoso, porque trabalhei duro neste projeto, e ele se tornou um sucesso. Além disso, embora eu soubesse que o microprocessador teria muitas aplicações, o que vemos aí, agora, é muito mais do que eu esperava.

P -Você imaginou que o microprocessador se espalhasse tão rapidamente?
R – Na verdade, sim. Embora não em um número tão grande, com todas essas aplicações que vemos por aí. O fato é que, no momento em que as telecomunicações foram vivendo um boom, principalmente relacionado à telefonia, tudo fez sentido. Quem poderia imaginar, por exemplo, o nascimento da internet? Nem mesmo os livros de ficção científica falavam sobre qualquer coisa similar. Naqueles dias, o produto mais futurista era a g, que era, basicamente, uma calculadora.

P – Então você não esperava que o destino poderia fazer os caminhos de PCs e telefones se cruzarem?
R – Não! Até porque, assim como a internet, eu sequer poderia imaginaria telefones celulares também. Na década de 1980, no entanto, montei a Cygnet Technologies e lançamos o CoSystem, um dispositivo que tornou possível conectar PCs e telefones, para transmitir vozes e dados. Mas ele não foi um sucesso; aquele produto foi criado muito cedo para a época.

P – Que futuro você vê para o PC?
R -Em um curto prazo, não vejo PCs, smartphones e tablets coexistindo. Mas, talvez, nos próximos 50-60 anos as áreas de TI e de biologia deverão se juntar e computadores usarão moléculas vivas para alcançar resultados surpreendentes: os componentes dos computadores serão átomos e moléculas que funcionarão de acordo com os princípios biológicos. Já para termos máquinas pensantes, com a sua própria consciência, será mais difícil: a inteligência humana deverá ser sempre superior. Mas se nós conseguirmos criá-las, essas máquinas serão baseadas nos princípios de organismos vivos.

P – E sobre o futuro da tecnologia em geral?
R – Tudo vai ficar menor! Concordo com Cooper quando ele fala sobre microchips que serão implantados em nossos corpos. Vivemos em tempos de aceleração tecnológica inacreditável; prever o futuro é praticamente impossível. Mas se há uma coisa que me surpreendeu, recentemente, é o que nós poderemos moldar nos próximos anos, em impressoras 3D: alguns deles "fabricam" células vivas, outras criam tecidos! Eu acho tudo isso incrível!

Federecio Faggin (nascido em Vicenza, em 1º de dezembro de 1941) é um físico e inventor italiano, e cidadão norte-americano naturalizado. Após graduar-se com distinção na Universidade de Pádua em 1965, ele foi nomeado gerente de projeto para o Intel 4004, o primeiro microprocessador da história. Em 1974, ele fundou a ZiLOG, uma empresa que, dois anos depois, lançou o Z80, um microprocessador de 8 bits, que se tornou uma das famílias mais utilizados nos CPU desde sempre. Em 1986, ele fundou a Synaptics, contribuindo para a disseminação de touchpads. Em 2010, ele recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação do presidente dos EUA, Barack Obama, em reconhecimento a sua longa carreira como pesquisador.

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